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Entretenimento

Alice Caymmi acerta ao propor um outro olhar sobre a obra de Dorival Caymmi em álbum imerso nas águas da latinidade

maio 1, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Alice Caymmi lança o álbum ‘Caymmi’ com releituras de 12 músicas do compositor Dorival Caymmi
Reprodução / Vídeo
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Caymmi
Artista: Alice Caymmi
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Com a voz grave, tão doce e profunda quanto o mar que ele decantou em canções praieiras, Dorival Caymmi (30 de abril de 1914 – 16 de agosto de 2008) gravou o próprio cancioneiro de forma tão lapidar e definitiva que a única saída para quem quiser abordar a obra do compositor baiano é procurar outra forma.
Filha de Dorival, a cantora Nana Caymmi (1941 – 2025) encontrou o caminho dela com a voz que parecia abarcar todos os sentimentos do mundo e se tornou, ela própria, uma referência no canto desse repertório composto por sambas, boleros e canções praieiras. Neta de Dorival, Alice Caymmi também segue trilho individual em “Caymmi”, álbum que lançou ontem, 30 de abril, dia do 112º aniversário de nascimento do avô da artista.
Com produção musical de Iuri Rio Branco (baixo, bateria, guitarra, percussão e programação), o álbum “Caymmi” está imerso nas águas da latinidade. O som é contemporâneo, mas não focado na produção vigente no mercado latino da atualidade, focado no reggaeton. Alice Caymmi se joga no mar da latinidade vintage, como exemplificam o molho de salsa que tempera “Canção da partida” (1957) e o calypso que desloca a batida do samba “Maracangalha” (1956) para outra latitude.
O álbum “Caymmi” também mergulha em águas jamaicanas. O reggae que banha “Modinha para Gabriela” (1975) – em gravação introduzida na cadência do alujá, ritmo do Candomblé – também rega o samba “O que é que a baiana tem?” (1939), fazendo Alice transitar na ponte Bahia-Jamaica, erguida desde os anos 1980. Sedimentada pela ancestralidade enraizada tanto em Kingston quanto em Salvador (BA), cidade natal de Dorival, essa sólida ponte também ancora o álbum, repleto de sambas como “Dois de fevereiro” (1957), recriado com breve toque de ijexá.
Se “Canto de Obá” (Dorival Caymmi e Jorge Amado, 1972) faz a cantora puxar a rede genealógica da família Caymmi, em tema em que roga a Xangô proteção para o clã, “Acalanto” (1957) perde o sentido primordial de ninar na ambiência mais quente do álbum “Caymmi”. É a única música que parece nada ter ganhado de bom.
Acima de qualquer rótulo ou gênero, “Dora” (1945) reitera a fartura vocal de Alice Caymmi, cantora que descende da linhagem nobre da tia Nana, intérprete que soube dar a devida dramaticidade ao samba-canção “Adeus” (1948), ambientado por Alice em atmosfera de trip-hop. Os agudos da cantora na abordagem abolerada da canção praieira “O bem do mar” (1954) também lembram que trata-se do disco de uma grande cantora.
Com os toques dos músicos Doug Bone (trombone e trompete), Theo Silva (guitarra), além dos beats e efeitos do produtor Iuri Rio Branco, perceptíveis em “Morena do mar” (1967). samba com toque cubano, o álbum “Caymmi” escapou do risco de soar modernoso.
O cancioneiro de Dorival Caymmi é reprocessado com frescor e novas harmonias, mas com total respeito às letras e melodias. O samba “Eu não tenho onde morar” (1960), por exemplo, é revitalizado na cadência de um reggae praieiro com toque de dub, em final sintonia com os versos “Eu não tenho onde morar / É por isso que eu moro na areia”.
Enfim, Alice Caymmi honra a dinastia sem ranços tradicionalistas, acertando ao propor um outro olhar sobre a obra maestra do avô, Dorival, em “Caymmi”, álbum que, por estar ancorado em porto inseguro, cumpre a função de revitalizar o cancioneiro do compositor para novas gerações.
Capa do álbum ‘Caymmi’, de Alice Caymmi
Luqdias / Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento

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